3. ESPECIAL 6.2.13

1. SOMOS TODOS SANTA MARIA
2. QUANDO O BRASIL VAI APRENDER?
3. OS HERIS DE SANTA MARIA
4. A ASFIXIA NO ACABOU
5. VIDA E MORTE NAS REDES SOCIAIS
6. A TNUE FRONTEIRA ENTRE O NORMAL E O TRGICO
7. A CINCIA DAS MULTIDES
8. PREPARADOS PARA O PIOR?

1. SOMOS TODOS SANTA MARIA
	NA manh do domingo passado, acordamos todos em Santa Maria e no conseguimos mais sair de l. Ficamos em estado de choque como seus moradores, sofremos com as mesmas cenas de jovens correndo na frente da boate Kiss, tentando ajudar, tentando entender, tentando saber quem se salvou, quem morreu.  Como todos os moradores de Santa Maria, tivemos de imaginar o inconcebvel: 235 jovens asfixiados, queimados, empilhados como os mortos de Pompeia diante de portas sem sada da ratoeira. No vimos, mas ficamos sabendo que, no ginsio local, pais e mes tiveram de entrar na sala do desespero, a parte isolada onde os cadveres minuciosamente enfileirados eram identificados. De um lado, os homens. Muitos com os celulares colados no peito. Ah, os celulares que continuavam a tocar... Do lado das mulheres, os corpos semienvoltos nas roupinhas leves com que tantas meninas saram para a balada, adequadas ao calorzo de 35 graus em Santa Maria, no aos pedaos de material incandescente que despencaram do forro da Kiss. As listas dos nomes os tornavam nossos amigos de faculdade, nossos colegas de trabalho, nossos irmos, nossos filhos. Quatro Brunas, cada uma mais bonita e promissora que a outra. Quatro Leonardos. Quatro Marianas. Trs Maicons e um nico e inconfundvel Vandelcork (que morreu com a mulher e deixou um filhinho).  medida que passavam os dias, a tragdia parecia maior. Todos choravam com a me que enterrou um filho na segunda-feira e outro na quarta. Com o pai que andava atordoado com um atestado de bito dizendo o indizvel, que a sua filha de 18 anos estava morta. Na dor coletiva, todos tivemos um momento de orgulho ao ver os cidados de Santa Maria sarem de branco numa marcha silenciosa, espontnea, digna.  Como eles, sentimo-nos queimar por dentro no com a fumaa txica que matou os nossos jovens, mas pelo clamor de justia e pelo compromisso de que nunca mais deixaremos que isso acontea. Nunca mais.

DESESPERO E DISCIPLINA
Um casamento demogrfico produziu imediatas cenas de horror e solidariedade diante da boate Kiss, assim que os corpos foram sendo retirados da fumaa e das cinzas, ao redor de 3h25. Santa Maria tem 27.000 estudantes universitrios, o equivalente a quase 10% da populao. Outra fatia de 3%  formada pelos mais de 8000 militares do contingente de uma base da Fora Area Brasileira e de quartis de infantaria blindada e artilharia. Jovens universitrios vestidos para a balada, de bermudas, saias, blusinhas, tnis e sapatos de salto alto, o uniforme sobejamente adequado para as festas de incio do ano letivo, misturavam-se no espanto de situaes aterradoras e no cho spero  disciplinada ajuda com experincia militar. A triste matemtica se reproduziu nas mortes: at a noite de quinta-feira eram 114 estudantes da Universidade Federal e treze militares. Do total de 235 bitos, foram 122 homens e 113 mulheres.

O SILNCIO DO GINSIO
O Centro Desportivo Municipal foi o palco da rpida, respeitosa e minuciosa organizao de Santa Maria diante da tragdia. O ginsio foi transformado em sala de espera de familiares aflitos, Instituto Mdico-Legal e velrio coletivo, tudo ao mesmo tempo. Os mais de 230 mortos foram organizados, no cho, por sexo, homens de um lado, mulheres de outro. A Identificao dos rapazes era mais fcil, porque carregavam os documentos nos bolsos. As mulheres, quase todas, haviam perdido sua bolsa. Celulares e carteiras de identidade foram colocados no peito dos mortos. Pela manh, muitos telefones ainda insistiam em tocar, provavelmente na derradeira esperana de pais, irmos e namoradas de que os donos atendessem. Um nico aparelho tinha recebido 104 ligaes. Nele, lia-se: me. Caixes suplementares vinham de localidades vizinhas.

A INDIZVEL MORTE DOS FILHOS
A morte  um momento de angstia e tristeza. A morte de um filho  um contrassenso, inexplicvel, inaceitvel, absurda. Cenas como a que ilustram essas duas pginas se reproduziram ao longo da semana em Santa Maria e ecoaram ruidosamente por todo o pas. Em um nico dia, a segunda-feira depois da tragdia, foram enterrados 107 corpos  22 vezes a mdia diria da cidade, de cinco. Houve casos de pessoas que cederam jazidos a familiares de vtimas que no tinham onde sepult-las. Do lado de fora dos cemitrios, nibus e txis circulavam com fitas pretas dependuradas no retrovisor. Era o luto por uma catstrofe que matou de uma nica vez uma pessoa para cada grupo de 1000 habitantes da cidade.  como se, em So Paulo, morressem 11.000 pessoa em uma nica noite. Todos jovens, filhos e filhas, estudantes com projetos de futuro, planos em construo, numa dolorosa inverso da natureza da vida.

ADEUS AO NAMORADO CAVALEIRO
Os namorados Yasmin e Lucas, ela com 19 anos, ele com 20, tinham se separado na boate quando o garoto foi ao banheiro e pediu  menina que guardasse por uns minutos o chapu, de modelo Campeiro, tpico dos cavaleiros gachos do interior. Nunca mais se viram. No velrio, Yasmin chorava por Lucas, destruda pelo doloroso e injusto sentimento de impotncia de, naquela assustadora madrugada de terror, no ter conseguido retornar  casa noturna par tentar salvar o companheiro. Lucas preparava-se para cursar a faculdade de medicina veterinria. Adorava msica sertaneja e rodeios. Diz o pai, Natalcio Oliveira: Fica na memria um filho carinhoso, amvel, dcil, querido por todos. Era acostumado com a lida do campo, ginete e laados. Morreu ao lado de amigos.


2. QUANDO O BRASIL VAI APRENDER?
Como tantas outras tragdias, a da boate Kiss ocorreu por uma sequncia de erros e omisses. Espera-se que, desta vez, as lies para evit-los no sejam esquecidas.
LESLEI LEITO E ANDR ELER, DE SANTA MARIA

     A estudante de agronomia Juliana Sperone Lentz, de 18 anos, foi condenada  morte em agosto do ano passado, quando expirou a licena de segurana contra incndio da boate Kiss, em Santa Maria, e os bombeiros no apareceram para fazer a vistoria. O destino trgico de Alisson Oliveira da Silva, de 22 anos, foi definido dois meses antes, quando a casa noturna passou por uma reforma que revestiu o teto com uma espuma acstica altamente inflamvel. Gabriela Sanchotene, de 23 anos, que trabalhava na boate, foi vitimada pela prtica de seus patres de lotar o estabelecimento muito alm de sua capacidade. A vida de Pedro de Oliveira Salla, de 17 anos, foi abreviada no ltimo dia 25, quando o produtor da banda Gurizada Fandangueira resolveu comprar fogos de artifcio mais baratos, porm contraindicados para ambientes fechados. Os quatro jovens acima e outras 231 pessoas morreram na madrugada de 27 de janeiro por uma sucesso de falhas e medidas irresponsveis iniciada bem antes de o vocalista da banda acender um sinalizador durante os primeiros versos do funk Amor de Chocolate, ateando fogo ao forro da casa (veja o quadro ao lado). A causa para a interrupo de tantos futuros brilhantes pode ser resumida em uma palavra: descaso. E isso inclui a percepo de muitos parentes e amigos das vtimas de que tudo poderia ter sido diferente, no fosse a cultura da negligncia e da corrupo to disseminada em todo o Brasil.
     Ainda acachapada pela dor de perder a filha Thanise, de 18 anos, Carina Correa foi s ruas da cidade gacha com um cartaz em punho que sintetizou a indignao nacional despertada pela tragdia: Minha filha morreu por ganncia de gente corrupta. O incndio em Santa Maria levou algumas prefeituras a revisar a legislao especfica para esses casos e a prometer que, a partir de agora, a fiscalizao ser mais rigorosa. Como  possvel acreditar que isso dar resultado, se as lies de tantos outros desastres no pas no serviram para evitar que se repetissem?  triste constatar que a falta de estrutura na boate do Rio Grande do Sul no  uma exceo, mas a regra nesse tipo de estabelecimento no Brasil, diz Jos Carlos Tomina, especialista em segurana contra o fogo do Instituto de Pesquisas Tecnolgicas de So Paulo. Est tudo errado aqui, concordou o americano Jim Bullock, segundo comandante do Departamento de Bombeiros de Nova York, quando a reportagem de VEJA lhe mostrou a planta e a lista de dispositivos anti-incndio da Kiss. Adianta, porm, criar leis mais rgidas e fazer exigncias de fiscalizao enquanto elas estiverem atreladas a uma estrutura que favorece a propina e o achaque de empresrios? Certamente no.
     Nas principais cidades brasileiras, h quadrilhas de funcionrios pblicos, despachantes e policiais especializadas na cobrana de propinas e no comrcio de alvars. Empresrios da noite em So Paulo contam que a morosidade e a burocracia os obrigam a contratar consultorias que se dedicam  obteno de alvars. Oficialmente, elas orientam na colocao correta dos extintores de incndio e em questes sanitrias. Na prtica, fazem, tambm, o servio sujo de negociar a propina com os fiscais municipais para liberar o funcionamento das casas noturnas. Trata-se de corrupo com nota fiscal, diz um empresrio paulista. O valor a ser pago vai de 10.000 a 100.000 reais, dependendo do tamanho do estabelecimento. Para evitar o incmodo, muitas casas simplesmente ignoram a necessidade de alvars e abrem as portas sem sequer solicit-los. Seus donos preferem pagar eventuais multas a gastar com a propina. Atualmente, apenas um tero das casas noturnas da capital paulista est em dia com a inspeo dos bombeiros. Considerando-se a frequncia com que estabelecimentos comerciais so autorizados a funcionar de maneira irregular, fica a impresso de que as licenas servem apenas para aumentar a arrecadao para os cofres pblicos, e no para dar segurana real aos cidados, diz a promotora Beatriz Lopes de Oliveira, que investiga a rede de venda de alvars em So Paulo.
     A observao da promotora resume um dos grandes paradoxos da gesto pblica no Brasil. De um lado, a eficincia na cobrana de impostos e a capacidade de criar regras incuas em profuso. De outro, a inobservncia de normas que poderiam salvar muitas vidas. Desde 2011, todos os aparelhos eletroeletrnicos so obrigados a ter plugues com dois ou trs pinos redondos, que exigem um padro de tomada inexistente em qualquer outro pas. Mas o risco de choque eltrico aumentou, em vez de diminuir, j que as pessoas se viram obrigadas a comprar adaptadores de camel para conseguir ligar seus aparelhos antigos nas tomadas novas. Quando se trata de reforar a fiscalizao para evitar grandes tragdias, porm, as autoridades so relapsas. Em 2008, por exemplo, 48 pessoas morreram quando o barco Comandante Sales adernou no Rio Solimes, na Amaznia. A embarcao no tinha inscrio na Capitania dos Portos e levava o dobro da sua capacidade de passageiros. A morte de 685 pessoas em dois acidentes similares com barcos na Amaznia, 27 anos antes, no serviu para tornar o poder pblico e os donos de embarcaes menos irresponsveis.
     A tragdia de Santa Maria obedeceu ao mesmo parmetro infame que causa ou, no mnimo, amplifica todos os grandes desastres no Brasil  uma combinao de fiscalizao superficial e empresrios negligentes. Nos ltimos anos, os donos da Kiss investiram em trs obras no estabelecimento. Na primeira, de fevereiro de 2011, fizeram um bar novo. Em fevereiro de 2012, reformaram os palcos e construram camarim, bilheteria, mezanino e camarotes. Em novembro, rebaixaram o teto em 1,5 metro, revestindo-o de uma espuma barata  base de poliuretano comum, material altamente inflamvel. Os bombeiros que fizeram a ltima vistoria no local, em agosto de 2011, consideraram que uma porta era o bastante para escoar com segurana 691 pessoas. Elissandro Spohr, um dos donos, vangloriava-se na imprensa santa-mariense de extrapolar o limite. Minha casa de shows enche. Consigo juntar umas 1400 pessoas, dizia. J os bombeiros e os fiscais municipais fizeram vista grossa para as condies de segurana da Kiss. A inpcia acabou com os sonhos de um em cada 200 jovens da cidade.

O PASSO A PASSO DA TRAGDIA
Como o descaso e o desleixo resultaram em um show de horrores na boate Kiss, em Santa Maria

BOATE KISS
REA  615 metros quadrados
CAPACIDADE  691 pessoas
SITUAO LEGAL  O alvar da Vigilncia Sanitria venceu em maro de 2012 e a vistoria anual dos bombeiros est pendente desde agosto.

MORTOS 235
HOSPITALIZADOS 127
At quinta-feira, dia 31

O ROL DA NEGLIGNCIA
Fogos de artifcio
Como eram: a banda fazia uso de fogos de artifcio imprprios para ambientes fechados, como j advertia a embalagem 
Como deveriam ser: existem fogos para uso interno  bem mais caros, porm menos perigosos 
Responsabilidade: donos da boate e msicos

Revestimento acstico
Como era: espuma de poliuretano comum, altamente inflamvel
Como deveria ser: espuma revestida de lquido retardante de chamas, na qual o fogo se extingue rapidamente, ou l de rocha, que suporta at 1000 graus sem se inflamar 
Responsabilidade: donos da boate e Corpo de Bombeiros

Equipamentos de segurana
Como eram: havia 7 extintores (pelo menos um, quando acionado, no funcionou) e nenhum sprinkler
Como deveriam ser: no mnimo doze extintores  4 de gua, 4 de gs carbnico e 4 de p qumico  e sprinklers em todos os ambientes
Responsabilidade: Corpo de Bombeiros e donos da boate

Lotao
Como em: na hora do fogo, havia no mnimo 1000 pessoas no salo de 615 metros quadrados 
Como deveria ser: a capacidade autorizada era de 691 pessoas 
Responsabilidade: Corpo de Bombeiros, prefeitura e donos da boate

Sada
Como era: uma nica porta, de 3,5 metros de largura, dava para a rua
Como deveria ser: no mnimo duas portas de 2,40 metros cada, bem longe uma da outra, dando diretamente para a rua, e uma equipe treinada para organizar o fluxo de pessoas 
Responsabilidade: prefeitura, Corpo de Bombeiros e donos da boate

1- 3h15 - O vocalista da banda acionou um artefato que lanou fascas para o teto e incendiou o revestimento acstico. O extintor ao lado do palco no funcionou. A temperatura na altura da cabea das pessoas ficou entre 40 e 50 graus.
2- 3h16 - As pessoas que assistiam ao show correram para a porta. As demais no sabiam o que acontecia. Diante do tumulto, seguranas bloquearam a sada. Muitos entraram no banheiro ao lado e tentaram pular a janela, travada por um tapume.
3- 03h18 - Em 3 minutos, a fumaa ocupou a rea do palco e nos 4 seguintes tomaria conta da boate. As pessoas empurraram os seguranas e se aglomeraram nas trs portas da antessala da sada. Uma mdia de dez pessoas se espremia em 1 metro quadrado, o dobro do aperto de um metr lotado. Um curto-circuito desligou as luzes e a fumaa negra agravou a escurido.
4- 3h20 - Uma funcionria da boate postou no Facebook: Incndio na Kiss. Socorro. Ela no conseguiria escapar.
5- 03h23 - O fogo se extinguiu, mas a fumaa permaneceu e j havia feito muitas vtimas. Um grupo de bombeiros chegou ao local, entrou com mscaras e cilindros de oxignio e comeou a remover quem estava no cho. Quatro voluntrios civis, na porta, acabavam de puxar para fora as pessoas semidesacordadas e cobertas de fuligem.
6- 4h - Os bombeiros perceberam que s havia corpos sem vida  sua volta, em pilhas de at 1 metro, e encerraram o trabalho de salvamento. Uma segunda equipe chegou e ainda ajudou um grupo de jovens que, com marretas emprestadas pelos bombeiros e vizinhos, abriam um buraco na parede do banheiro. Quando conseguiram, era tarde: 100 mortos se empilhavam l dentro.

COM REPORTAGEM DE LEONARDO COUTINHO, TATIANA GIANINI, FILIPE VILICIC, MARCELO SPERANDIO E GABRIELE JIMENEZ


3. OS HERIS DE SANTA MARIA
Na tentativa de salvar da morte pessoas que muitas vezes eles nem sequer conheciam, homens e mulheres arriscaram a prpria vida. E alguns a perderam.
LAURA DINIZ, KALLEO COURA E BELA MEGALE

     Pouca coisa pode mitigar o sofrimento de quem, como os pais e amigos das vtimas de Santa Maria, vive a dor da perda em seu grau mais lancinante. Em meio a esse pouco ou quase nada capaz de consolar est um gesto que tantas vezes se manifesta nas grandes tragdias: o da solidariedade em sua forma mais extrema  aquela que leva algum a relevar a prpria existncia em prol da do outro, faz emergir gigantes entre os comuns e  qual tambm se d o nome de herosmo.
     O incndio de Santa Maria fez 235 vtimas at a noite de quinta-feira e um nmero ainda desconhecido de heris. So homens e mulheres que, tendo tido a sorte de escapar do inferno de fogo e fumaa em que se transformou a boate Kiss na madrugada do domingo passado, em vez de respirarem aliviados, retornaram ao seu interior sufocante para agarrar a mo de um amigo que vagava desorientado, procurar a namorada que ficou para trs ou carregar nos braos desconhecidos que jaziam desacordados no cho.
     O estudante Vincius Rosado fez esse percurso ao menos catorze vezes, antes de perder as foras. O ex-fisiculturista Ezequiel Real carregou nos braos quase trinta pessoas, sem saber quem eram e nem sequer se ainda viviam. Leticia Vasconcellos, recepcionista da boate, teve duas chances de sair dela com vida, mas, na terceira vez em que mergulhou no terror do salo enfumaado, no conseguiu mais voltar. Estava em busca de um amigo, cujo corpo foi encontrado prximo ao dela.
     Nas narrativas modernas, o heri  aquele que, com seus poderes excepcionais, reconstri o que foi destrudo, salva planetas do extermnio, indica os caminhos que os homens devem seguir. O heri arquetpico, na sua jornada, busca sempre a redeno  a sua e a da humanidade. A grandeza dos heris de Santa Maria diminui a nossa misria e traz um pouco de conforto queles para quem, desde domingo, viver passou a ser um exerccio de dor.

A TRISTEZA DO SALVADOR
O ex-fisiculturista Ezequiel Lovato Corte Real estava a poucos passos do palco quando o fogo comeou. Foi um dos primeiros a sair. Quando percebeu que muita gente no conseguia fazer o mesmo, voltou. Naquela madrugada, tirou da fumaa e do fogo quase trinta pessoas (como na foto ao lado) Do lado de fora, ouvia amigos gritar Vai, Zaca, no para!. Ao carregar uma menina que estava cada no cho, sentiu a pele de sua perna se descolar do corpo. Em outro momento, enquanto tentava retirar uma adolescente sob uma pilha de corpos, uma mo puxando-lhe a perna. Era um rapaz pedindo ajuda. Socorro, ele dizia. Tentei dar as mos para os dois ao mesmo tempo e puxar. Como iria escolher s um? No consegui. Fiquei paralisado, em choque. A sa correndo e chamei ajuda. Desde domingo, Ezequiel recebe agradecimentos por onde passa. Mas s pensa naqueles que no conseguiu salvar. Eu me sinto fraco e frustrado

O VAQUEIRO APAIXONADO
O estudante de agronomia Joo Paulo Pozzobon, de 20 anos, conheceu a namorada, Michele Cardoso, da mesma idade, na boate em que os dois morreriam seis meses depois. Apaixonado pelo campo e por cavalos, morava com os avs (na foto ao lado) em uma fazenda prxima a Santa Maria. Quando o incndio comeou, ele estava em frente ao palco e percebeu logo o que se passava. Conseguiu correr at a sada, mas, ao chegar l, contrariando o apelo dos amigos, resolveu voltar. Disse que iria procurar Michele, que, naquele momento, postava um pedido de socorro no Facebook (veja a reportagem na pg. 72). O plano de Joo Paulo era tentar quebrar algumas janelas para ajudar a menina e outros a escapar de l. No conseguiu.

UMA SALVA DE PALMAS PARA O BARMAN
Naquele sbado, o barman Rogrio Cardoso Ivaniski, de 27 anos, avisou ao pai que na semana seguinte comearia um trabalho novo, na tesouraria de uma empresa de transporte de valores, indicado pelo pai de Vanessa de Avila, sua namorada. O que seria a ltima noite de servio na Kiss terminou como o seu derradeiro dia de vida. H alguns anos, mesmo nadando mal, Rogrio havia entrado em um rio para salvar um desconhecido que se afogava. Desta vez, resolveu enfrentar a fumaa ao perceber que muitos clientes estavam confundindo o caminho da sada e indo em direo aos banheiros. Foi atrs para instruir as pessoas a encontrar o caminho correto. Depois de algum tempo, desmaiou, consumido pela fumaa. Acho que ele no sabia que ela era to txica, disse o irmo James da Silva. No velrio de Rogrio, James foi abordado por cinco pessoas que disseram estar vivas graas ao barman, enterrado sob uma salva de palmas.

A CORAGEM DA HOSTESS
Hostess da Kiss, Leticia Vasconcellos no estava feliz l. No sbado, escreveu no Facebook: A vida  curta demais para viver num emprego que a gente no ama. Mas ela conhecia a casa como poucos. Quando percebeu o fogo, saiu rapidamente, guiando vrios clientes pelo caminho. Na rua, deu o alerta: Tem gente indo para os banheiros, temos de ajudar. E entrou novamente. Na segunda vez em que deixou a boate, ouviram-na perguntar: Cad o Joo?. O fotgrafo Joo Barcellos era um de seus melhores amigos. Leticia retornou mais uma vez. Preocupada, sua irm Vanessa, de 23 anos, a procurava na porta do local. Mas, desta vez, Leticia no conseguiu mais sair. No comeo, questionei: por que ela no pensou antes de tudo nos filhos que iria deixar?, diz seu pai, Renato Vasconcellos. Leticia deixou um casal de filhos pequenos. Isso passou. Sinto orgulho da minha filha, diz.

RESGATE NA MARRA
A imagem de pessoas quebrando a parede da Kiss para tentar deixar a fumaa sair  uma das mais contundentes do desespero que tomou conta daqueles que, salvos, lutaram para salvar os outros tambm. O empresrio Luiz Gustavo Riet foi um dos que participaram desse esforo. Ele estava na boate para festejar o aniversrio de 28 anos de seu melhor amigo, Ubirajara Jnior. Na hora do foge, Ubirajara havia ido ao banheiro. Riet conseguiu sair e passou a ajudar a puxar para fora as pessoas que estavam cadas prximo  porta. Pegar algum l do fundo e trazer at a sada era muito difcil, a falta de ar que dava era grande. Ento, um trazia at o meio, outro entrava e puxava de l at a porta. A, eu trazia para a rua, explica. Por causa da fumaa que inalou, Riet contraiu um edema pulmonar e est internado. J recebeu mais de 100 visitas, incluindo as de parentes de jovens que ajudou a salvar. Mas ele diz que no queria ser heri. Queria o amigo, que morreu, de volta.

O FILHO QUE A ME NO CONSEGUIU ENTERRAR
Foi graas ao filho, o cabo Lucas Teixeira, de 21 anos, que Ana Lucia acredita ter conseguido deixar o hospital depois de 36 dias internada por causa de uma leucemia. Lucas ficou ao seu lado o tempo todo e percorreu a cidade em busca de doaes de sangue. Ele sempre colocou a minha felicidade  frente de tudo tudo, conta Ana. Sua vida no foi a ltima que Lucas ajudou a salvar. Ele havia ido  kiss porque tinha feito um curso de dana e queria mostrar na pista o que havia aprendido. Felipe Xavier, com quem dividia um apartamento, conta que o amigo se afastou dele minutos antes de o fogo comear. Fiquei na frente da banda, e o Lucas foi danar. Depois disso, no o viu mais. Mas encontrei um menino que contou ter sido salvo por ele e que o viu carregando uma guria para fora Quem cuidou do funeral do cabo foi seu padrasto, Eugnio Pinheiro. A me, internada novamente, no pde ir ao enterro. Lucas era seu nico filho.

A TURMA DA MARRETA
Na hora em que a fumaa comeou a se espalhar pelo salo e tudo ficou escuro, o estudante de matemtica Eduardo Buriol de Oliveira, 22 anos, s pensou em correr em direo  sada. Abriu caminho como pde e, por ser alto e forte, levou vantagem. Quando, no entanto, j do lado de fora, ouviu os gritos de quem havia ficado l dentro, desesperou-se. Com uma marreta emprestada de um dos bombeiros, juntou-se aos que arregaaram as mangas para tentar derrubar uma das paredes da Kiss. Quando ficava exaurido, passava a ferramenta para quem estava ao lado e carregava para as ambulncias os feridos que haviam sido deixados na calada. Calcula ter carregado uns vinte, mas no sabe quantos sobreviveram. Trs dias depois do incndio, recebeu a notcia de que havia passado na prova da Escola de Sargentos das Armas. No teve nimo para comemorar.

O GIGANTE GENTIL
Com quase 2 metros de altura e 130 quilos, o estudante de educao fsica Vincius Rosado, 26 anos, chegou a carregar para fora da boate duas pessoas ao mesmo tempo, uma em cada brao. Testemunhas dizem que ele salvou catorze vidas. No foi o seu primeiro incndio. Quando tinha 12 anos, ajudou o pai a debelar o foge de uma casa vizinha, carregando baldes dgua de l para c. Desde aquele tempo, j era o grandalho do bairro, chamado para transportar as mudanas de todo mundo. Meu filho era grande, forte e doce, definiu o pai, o funcionrio publico Ogier Rosado. Dois mil e doze foi o ano em que Vincius deixou o emprego, virou voluntrio na Apae e comeou a dar aulas de dana a idosos. Tambm saiu com muitas meninas, mas no teve tempo de se apaixonar nenhuma vez. Naquela noite, quando suas foras acabaram, ele foi colocado numa ambulncia. Seguiu ainda consciente para o hospital e l morreu.

COM REPORTAGEM DE LUANA BAGGIO


4. A ASFIXIA NO ACABOU
As vtimas do incndio na boate Kiss, em sua maioria, morreram em decorrncia de queimaduras nas vias areas e intoxicao por monxido de carbono, fuligem e cianeto. Muitos dos sobreviventes continuam internados e ainda correm risco de vida.
ADRIANA DIAS LOPES

     Assim que o incndio na boate Kiss comeou, os jovens posicionados prximo ao palco no foram tomados apenas pelo pnico de ver o teto em chamas. A fumaa preta, densa e quente liberada pela espuma do revestimento acstico era extremamente txica. Aqueles rapazes e moas foram imediatamente acometidos por uma sensao de estrangulamento  resultado do acmulo de fuligem nas vias respiratrias. Rapidamente o ar se tornava mais escasso e, como em um jogo de domin, as vtimas eram derrubadas umas sobre as outras. Em locais menores, como os banheiros, os bitos foram tambm velozes. O monxido de carbono e o cianeto, liberados no processo de combusto, foram fatais. O cianeto foi o gs utilizado nos campos de extermnio nazistas durante a II Guerra Mundial. A maioria dos jovens da Kiss morreu por asfixia  os demais, queimados ou esmagados.
     Falta de ar, vmitos, torpor e asfixia. Do primeiro contato com a fumaa e o calor at a morte, calcula-se, transcorreram cerca de dez minutos. Derivada do petrleo, a espuma de poliuretano, usada como material no revestimento acstico da boate, alm de altamente inflamvel e txica, quando queimada, funciona tambm como isolante trmico. Ou seja, impediu a dissipao do calor. Sair vivo daquele inferno, contudo, no foi garantia de salvao. Dos 127 pacientes internados at a noite de quinta-feira passada, a maioria foi hospitalizada logo aps o incndio. Houve quem, no entanto, depois de voltar para casa, comeasse a passar mal, com muita dificuldade para respirar, e tivesse de ser internado s pressas. A asfixia repentina tem duas causas. A primeira  a queimadura das vias areas inferiores, a traqueia e os pulmes.  comum que os edemas e as bolhas se manifestem ao longo da semana seguinte, diz o intensivista Jean Carlo Rodriguez Pegas, do Hospital Albert Einstein, em So Paulo, que integrou a equipe de mdicos enviados a Santa Maria. As leses, quando acometem a traqueia e os pulmes, so indolores, agem silenciosamente. Quando a dificuldade para respirar se manifesta, os ferimentos j obstruem o canal de passagem de ar. O atendimento tem de ser imediato, sob o risco de morte. A outra causa do mal-estar tardio  a bronquite ou a chamada pneumonia qumica, ambas resultantes do acmulo de fuligem na parede dos brnquios, os canais de passagem do ar, e dos alvolos, as estruturas dos pulmes onde ocorre a troca gasosa. Diz o pneumologista Humberto Bassit Bogossian, do Hospital Albert Einstein, que acompanhou as vtimas: A cada aspirao pulmonar dos pacientes internados, saam tufos de poeira de 1 centmetro de dimetro. A estudante de enfermagem Ingrid Preigschadt apresentou um quadro de pneumonia qumica na noite de domingo, quase 24 horas aps sair aparentemente ilesa do incndio. Ela chegou a passar o dia postando mensagens no Facebook: Luto Santa Maria/RS. Durante a noite do mesmo domingo, sentiu uma irritao na garganta e falta de ar. Duas horas depois, Ingrid estava internada em estado grave em um leito de UTI. Na quinta-feira, por volta das 2 da tarde, uma amiga anunciava, tambm na rede social, que Ingrid estava prestes a receber alta e ir para um quarto comum.
     H ainda outro problema a ser enfrentado pelas equipes de atendimento mdico. Ao contrrio do monxido de carbono, que tende a sair do organismo nos primeiros dias, o cianeto causa um efeito duradouro de falta de ar, interferindo no aproveitamento de oxignio pelas clulas. Esses pacientes esto recebendo doses de vitamina B12, o antdoto mais eficaz contra o composto. Afora medicamentos especficos, o tratamento principal de todas as vtimas da boate Kiss consiste no aporte de oxignio. Os casos mais graves exigem que o sobrevivente seja mantido em coma, com ventilao artificial. Na quinta-feira, metade dos pacientes internados pertencia ainda a esse grupo.

O APELO: PRECISO DE TI
     A tragdia da boate Kiss provoca um dos sofrimentos mais profundos e duradouros que o ser humano pode experimentar. A morte repentina choca. A morte de centenas de jovens no auge de seu vigor fsico e intelectual, com uma vida inteira pela frente,  incompreensvel. A morte decorrente de uma sucesso de erros e negligncias  inaceitvel. A dor torna-se mais violenta diante da sensao de que os bitos poderiam ter sido evitados em vrios momentos, diz a psicloga Ana Merzel Kernkraut, coordenadora do servio de psicologia do Hospital Albert Einstein, em So Paulo. E se a banda Gurizada Fandangueira no tivesse economizado dinheiro na compra dos fogos de artifcio? E se os bombeiros tivessem fiscalizado a boate? E se os donos da Kiss tivessem equipado a casa noturna com os aparatos mnimos de segurana? E se eles tivessem respeitado a lotao mxima do lugar? E se, e se... A dor dos sobreviventes e dos familiares dos mortos, segundo os especialistas em luto, dificilmente ser atenuada em menos de um ano  tempo em mdia trs vezes maior que o esperado em casos de bito natural de um parente ou amigo prximo.
     O cuidado psicolgico com os envolvidos no incndio deve ser intenso e precoce, como aconteceu em Santa Maria. Ao meio-dia de domingo, quando os portes do Centro Desportivo Municipal, para onde estavam sendo levados os corpos, ainda no tinham sido abertos, j estavam de prontido quinze equipes multidisciplinares para ajudar no conforto das famlias. A assistncia psicolgica imediata  fundamental para que as pessoas consigam enfrentar o choque, diz Ana Merzel. As reaes foram as mais diversas. Diante do filho, uma me recusava-se a reconhec-lo, como se, com a negao, ela pudesse anular a morte do rapaz. A psicloga Maione Ruviaro foi uma das voluntrias, e no esquece o jovem sobrevivente que perdera a irm e vinte amigos. Ao perguntar ao garoto se ele precisava de algo, ela ouviu a resposta esperanosa: Preciso de ti. 

SEM AR
As vtimas da boate kiss podem ser divididas em dois grupos. No primeiro, esto os jovens que morreram no local do incndio. Entre eles, a grande maioria foi a bito em decorrncia da intoxicao por gs monxido de carbono e cianeto. Os efeitos da inalao dessas substncias costumam ser sentidos, em mdia, nos primeiros cinco minutos de exposio. Dependendo da proximidade com o foco do incndio, tais sintomas ocorrem em maior ou menor intensidade. Nos casos mais graves, d-se a morte por asfixia. Os sobreviventes tambm correm risco. Eles esto sujeitos aos efeitos tardios, indolores e possivelmente fatais das queimaduras das vias respiratrias e do acmulo de fuligem da fumaa nos pulmes.

INTOXICAO POR MONXIDO DE CARBONO
O que : Produzido durante a combusto, o monxido de carbono se liga facilmente  hemoglobina e impede a chegada de oxignio a todos os rgos e tecidos. Sua afinidade com a hemoglobina  250 vezes a do oxignio.
O que acontece mediante a exposio intensa nos...
... 5 primeiros minutos - O organismo reage  falta de oxignio aumentando o ritmo respiratrio. Com a escassez de oxignio no crebro, a vtima  acometida por torpor
...10 primeiros minutos - Morte por asfixia.
Os riscos a longo prazo a que os sobreviventes esto sujeitos: Os efeitos da intoxicao por monxido de carbono podem se estender por alguns dias. Os pacientes mais graves requerem ventilao mecnica. Os mais leves, mscaras de oxignio. O organismo leva, em mdia, de seis horas a trs dias para se livrar do gs

INTOXICAO POR CIANETO
O que : Extremamente txico, o cianeto resulta da queima da espuma de poliuretano, usada como isolamento acstico por muitas das casas noturnas brasileiras. Inalado em grandes quantidades, altera o aproveitamento de oxignio pelo organismo
O que acontece mediante a exposio intensa nos...
...5 primeiros minutos - Devido  alterao da respirao celular, a vtima apresenta respirao ofegante, torpor, confuso mental, vmito e arritmia cardaca
...10 primeiros minutos - Morte por asfixia
Os riscos a longo prazo a que os sobreviventes esto sujeitos: Na semana seguinte, a vtima  acometida por dificuldade respiratria causada pela alterao da respirao celular. Nos casos mais graves, pode haver a morte por asfixia

INTOXICAO PELA FULIGEM DA FUMAA
O que : A fuligem da fumaa se deposita na mucosa das paredes das vias areas (da faringe aos pulmes), levando a um quadro inflamatrio. Com a inflamao, os brnquios ficam obstrudos. As leses nos alvolos facilitam o acmulo de lquido nos pulmes
O que acontece mediante a exposio intensa nos...
...5 primeiros minutos - A mucosa inflamada, sobretudo na regio da garganta, causa dor forte na rea do pescoo e tosse intensa. Alm disso, como um mecanismo de defesa contra a entrada de poeira, o trato respiratrio tende a se contrair, especialmente na laringe, causando a sensao de estrangulamento
...10 primeiros minutos - Aumento da dificuldade respiratria
Os riscos a longo prazo a que os sobreviventes esto sujeitos: Os sintomas costumam durar uma semana e variam conforme a estrutura lesionada:
 As obstrues nos brnquios, canais de passagem do ar, levam a um quadro de bronquite qumica
 A parede dos alvolos, estruturas responsveis pela troca gasosa do sangue, torna-se permevel, e os pulmes se enchem de lquido.  a chamada pneumonia qumica, um quadro extremamente grave, que pode levar  morte por asfixia

QUEIMADURA DAS VIAS RESPIRATRIAS
O que : O calor do fogo e da fumaa machuca o trato respiratrio, principalmente as vias superiores  faringe e laringe. As leses dificultam a passagem de ar
O que acontece mediante a exposio intensa nos...
...5 primeiros minutos - As feridas causam ardncia na garganta. Como o ar tem dificuldade para chegar at os pulmes, a sensao  de estrangulamento
...10 primeiros minutos - Extrema dificuldade para respirar
Os riscos a longo prazo a que os sobreviventes esto sujeitos: A queimadura das vias areas inferiores (traqueia e pulmes)  indolor. Entre trs dias e uma semana depois da agresso, surgem edemas e bolhas, que dificultam o fluxo respiratrio. A vtima pode ser acometida por falta de ar progressiva. Nesses casos, o atendimento tem de ser imediato, sob a ameaa de morte por asfixia

Fonte: o pneumologista Humberto Bassit BogossIan, do Hospital Albert Einstein, em So Paulo.


5. VIDA E MORTE NAS REDES SOCIAIS
As mensagens compartilhadas pelos jovens de Santa Maria no Facebook e no Twitter serviram de mural de homenagens, mas tambm de um meio instantneo de mobilizao da cidade no pedido de ajuda aos hospitais e de organizao de velrios e enterros.
ANA LUIZA DALTRO

Incndio na KISS socorro. Eram 3h20 da madrugada do domingo 27 de janeiro quando a estudante de odontologia Michele Froehlich Cardoso, de 20 anos, postou o pedido de ajuda em sua pgina do Facebook. Apenas um minuto antes, o Corpo de Bombeiros de Santa Maria havia recebido a primeira ligao alertando sobre o fogo na boate. A instantaneidade das redes sociais pegou desprevenidos muitos dos amigos das vtimas, que no tiveram tempo nem de confirmar a gravidade da situao antes de responder. Como assim? Explica isso, pediu um de seus amigos no Facebook, como se no acreditasse no que havia lido. Outro postou: Baee que locura. Trs pessoas curtiram a mensagem de Michele. A essa altura, o fogo e a fumaa j haviam se alastrado. Outro amigo da estudante comentou que escutara os caminhes dos bombeiros subindo a rua da boate. Foi a primeira grande tragdia brasileira testemunhada e comentada em tempo real pelas redes sociais, especialmente pelos mais jovens, em um indito choque. Antes que os sites e a televiso noticiassem o incndio. Santa Maria j invadia, silenciosamente, o Facebook e o Twitter. Michele podia j estar morta, mas seu pedido de ajuda permanecia vivo on-line.
     Horas antes, no incio da noite, os registros eram de amigos alegres, combinando se encontrar logo mais na Kiss. Quando a manh chegou, o sentimento no poderia ser mais antagnico: mensagens com informaes sobre o incndio e telefones dos hospitais e dos centros de apoio foram freneticamente espalhadas pelas redes. O curtir do Facebook  gesto banal, de to fcil  ganhara gravidade e viu sua frequncia ser tragicamente diminuda. Mais de 1,1 milho de tutes relacionados ao assunto foram publicados at o incio da semana, fazendo dos termos #TodosDesejamForasASantaMaria e #ForaSantaMaria os mais comentados mundialmente na rede. O #prayforsantamaria esteve entre os assuntos do momento globais (os chamados trending topics) por quase duas horas. A internet deu s pessoas uma voz que elas no tinham, um canal para externar as emoes, quase como uma catarse, diz Rosa Maria Farah, psicloga e coordenadora do Ncleo de Pesquisas da Psicologia em Informtica da PUCSP. No caso de Santa Maria, a identificao foi ainda maior por envolver jovens em uma situao que poderia ter ocorrido com amigos ou familiares. Celebridades amplificaram a repercusso. A cantora Lady Gaga postou no Twitter uma foto em que rezava sob o lema #prayforSantaMaria. Manifestaram a sua consternao os cantores Boy George e Demi Lovato, o lder da banda Black Eyed Peas, will.i.am. e o tenista Rafael Nadal. A modelo Gisele Bndchen, gacha de Horizontina (cidade natal de uma das vtimas do incndio, Raquel Daiane Fischer, de 18 anos), tuitou suas condolncias.
     Como a lista oficial de feridos e mortos foi divulgada somente no fim da noite, as fotos das pessoas que estavam na boate e que no voltaram para casa foram espalhadas pelo Facebook j nos primeiros minutos depois da notcia. correndo de boca em boca  ou de post em post. A estudante Nathlia Barrios procurava notcias da amiga Erika Sarturi Becker. A mensagem foi compartilhada por quase 1700 usurios no Facebook, mas rika, quela altura, j estava na lista das vtimas fatais. A procura por informaes sobre amigos e familiares deu lugar, em seguida, s pginas de ajuda que foram criadas para coordenar o auxlio aos hospitais e s famlias. Por meio delas foi possvel saber das listas de mortos e feridos, dos pontos de doao de sangue, a quem os voluntrios deveriam procurar para ajudar nos velrios e enterros. O Facebook serviu tambm para prestar a derradeira homenagem associada  impotncia. Felipe Souza, sobrevivente, postou uma foto ao lado de Martim Francisco Onofrio e escreveu: Me di no conseguir achar ele na fumaa. Foi tudo muito rpido.
COM REPORTAGEM DE BIANCA ALVARENGA


6. A TNUE FRONTEIRA ENTRE O NORMAL E O TRGICO
Era impossvel prever que haveria um incndio na boate Kiss, mas era perfeitamente previsvel que, em havendo, o saldo seria catastrfico.
ANDR PETRY, DE NOVA YORK

     A fotografia que ilustra estas pginas foi tirada s 3 horas, 14 minutos e 49 segundos da madrugada de 27 de janeiro. Nela, aparece um grupo de jovens na boate Kiss, em Santa Maria. Eles danam e conversam, diante do palco onde se apresenta a banda Gurizada Fandangueira. No fundo, uma jovem sorri abertamente. Perto dela, um rapaz de barba fala com amigos. De costas, uma jovem mexe nos longos cabelos escuros, mostrando unhas pintadas num vermelho igual  cor do seu vestido. Em primeiro plano, uma garota de cabelos claros foi clicada de perfil, no momento em que piscava os olhos. Tudo nessa imagem  normal, descontrado, inocente. Nada ali denuncia que, segundos depois, s 3 horas e 15 minutos, o vocalista Marcelo dos Santos seguraria um sinalizador, apontando-o para o alto  e assim daria incio  tragdia que chocou o Brasil e o mundo.  sutil a fronteira que separa a normalidade da catstrofe. Sutil, s vezes quase imperceptvel, mas no invencvel.
     Tragdias acontecem por diversas razes, mas o engenheiro Henry Petroski, professor da Universidade Duke, que acaba de lanar mais um livro sobre acidentes, To Forgive Design (Perdoando o Design), afirma que na raiz da maioria das catstrofes se esconde uma armadilha muito humana: o excesso de confiana. Ela ilude, leva  imprudncia e est intimamente ligada  tecnologia. Sendo cada vez mais avanada, a tecnologia tende a ampliar a iluso de que tudo est certo. A confiana demasiada explica em parte o fracasso da Ponte do Milnio, em Londres, que vibrava demais sob o caminhar da multido. Pontes pnseis so uma inveno antiga da engenharia, e os ingleses, vtimas da armadilha humana, achavam que sabiam tudo sobre o assunto.  tnue a linha entre o normal e o trgico.
     O excesso de confiana tem um subproduto perigoso.  a normalizao do desvio, na expresso da sociloga Diane Vaughan, da Universidade Colmbia. Trata-se daquele relaxamento coletivo em relao ao cumprimento de certos procedimentos tcnicos. Depois de investigar a fundo o desastre da Challenger, o nibus espacial que explodiu 73 segundos aps o lanamento, em 1986, Diane escreveu um livro de quase 600 pginas em que disseca a cultura tcnica da Nasa, a agncia espacial americana. Descobriu que as falhas tcnicas que levaram ao desastre no eram novas, mas foram relegadas a segundo plano porque no haviam causado problemas em lanamentos anteriores. O desvio normalizou-se e virou o padro. Sete astronautas morreram.
     Os estudiosos costumam dividir os acidentes em trs tipos: os que decorrem de falha humana, os que resultam de falhas de engenharia ou design e, por fim, os acidentes de sistema, nos quais ocorre uma sucesso de falhas. O professor Charles Perrow, da Universidade Yale,  autor de um estudo seminal sobre os acidentes de sistema. Ele os chama de acidentes normais. Normais porque so virtualmente impossveis de antecipar. Ningum tinha como prever que um terremoto seria sucedido por um tsunami e atingiria a usina nuclear de Fukushima. Os acidentes de falha humana ou engenharia podem ser reduzidos com alguma facilidade, mas os normais so um tremendo desafio. Por mais complexos e requintados que sejam os mecanismos de segurana, tais desastres, infelizmente, vo sempre acontecer. So inevitveis. Eles habitam a zona de sombra entre a normalidade e a tragdia. Mas  diga-se outra vez  no precisam ser devastadores.
     Nassim Taleb, ex-financista, milionrio e atual professor de risco da Universidade de Nova York, explica como venc-los. Taleb  o criador de uma tese engenhosa, que exps em dois livros  Black Swan (Cisne Negro) e Antifragile (Antifrgil). No primeiro, ele destri impiedosamente os que tentam antever acidentes, catstrofes, choques  eventos que ele chama de cisnes negros. Diz que os especialistas de risco  na medicina, na economia, na vida cotidiana  so enganadores. No segundo livro, Taleb cria o conceito da antifragilidade. Designa no aquilo que  resistente e forte, mas aquilo que, alm de no ser frgil, se fortalece na adversidade, no caos. Escreve ele: O forte resiste ao choque e se mantm igual; o antifrgil fica melhor.
     O antifrgil  como a Hidra de Lerna, o monstro multicfalo da mitologia grega que, quando lhe cortavam uma cabea, criava outras duas. Taleb sustenta que  mais fcil identificar se algo  frgil (a sade de um parente, a estrutura de um edifcio, a moeda de um pas) do que prever a ocorrncia de uma tragdia (um cncer terminal, um incndio, uma crise cambial). Diz ele: A fragilidade  mensurvel, o risco no. Em Santa Maria, a boate Kiss era o smbolo acabado da fragilidade em caso de fogo. Era impossvel prever que um incndio aconteceria, mas era perfeitamente possvel antecipar que, em acontecendo, seria um horror. Sim,  tnue a fronteira entre o normal e o trgico. Mas ela pode ser alargada de modo que falhas (inevitveis, pois no somos perfeitos) deixem de produzir tragdias (evitveis, se formos prudentes). Assim, tal como a Hidra de Lerna, estaramos s 3 horas e 15 minutos da madrugada de 27 de janeiro no desorientados e devastados, mas mais fortes. Na foto, Danilo Brauner Jaques, no palco, toca sua sanfona. Na pista de dana, Clarissa Lima Teixeira  a jovem que sorri abertamente. Ambos viviam a ltima noite de suas vidas.


7. A CINCIA DAS MULTIDES
As pessoas em pnico reagem de forma catica, mas  possvel alterar esse comportamento por meio de modelos de computao e, assim, fazer construes mais seguras.
ALEXANDRE SALVADOR E FILIPE VILICIC

     O pnico que tomou conta do pblico quando comeou o incndio na casa noturna Kiss provocou uma situao catica. Mas a movimentao dos jovens, inclusive dos que se equivocaram ao entrar no banheiro buscando a sada, era possvel de ser prevista por um ramo da cincia relativamente novo. Esse ramo se chama dinmica das multides e  usado em muitos pases para construir espaos pblicos mais seguros, nos quais seja reduzida a probabilidade de ocorrer uma tragdia como a de Santa Maria. Na base da dinmica das multides esto as pesquisas sobre o comportamento individual dos integrantes de uma aglomerao, seja ela a plateia de um show, os clientes de um shopping center ou pedestres numa avenida movimentada (veja o quadro).
     A necessidade de antecipar a velocidade e a direo do fluxo de pedestres em locais pblicos j era conhecida na Antiguidade. O Coliseu romano, erguido no sculo 1, comportava entre 50.000 e 70.000 visitantes, mas podia ser evacuado em cinco minutos, graas s mais de setenta entradas que acompanhavam sua circunferncia. A diferena  que, hoje, os especialistas em dinmica das multides contam com a ajuda da tecnologia. As informaes sobre os comportamentos individuais so combinadas em softwares capazes de calcular como um grupo de pessoas se comporta diante de uma situao de risco, como elas agiriam no caso de um tumulto e quais pontos do local onde esto reunidas oferecem maior risco. Nas simulaes matemticas, usamos algoritmos que consideram variveis como a densidade populacional, a velocidade mdia em que as pessoas se deslocam, se elas esto cansadas por terem andado muito e as rotas de fuga disponveis. Os consumidores em um shopping center, por exemplo, movem-se de maneira mais lenta e ordenada que torcedores num estdio de futebol, disse a VEJA o matemtico ingls Paul Townsend, da consultoria Crowd Dynamics.
     Durante a Olimpada, a polcia de Londres usou aplicativos instalados em smartphones por frequentadores das competies. Monitorando em tempo real a movimentao dessas pessoas  o alarme soava, por exemplo, quando se formavam grandes aglomeraes ,  possvel direcionar equipes de segurana para pontos de maior risco. A aplicao das diretrizes da dinmica das multides poderia ter evitado a tragdia que matou 21 pessoas h dois anos na Love Parade, o festival de msica ao ar livre em Duisburg, na Alemanha. Os organizadores do festival desprezaram uma descoberta crucial da cincia das multides. Aglomeraes com mais de sete pessoas por metro quadrado provocam choques em cadeia entre elas, fazendo com que a multido se mova involuntariamente, impossibilitando, por falta de espao, o socorro a quem cai no cho. A cincia das multides leva em conta como a mente humana reage  percepo do perigo: se o sentimento de medo  construdo aos poucos,  medida que o risco se torna evidente, ou se ocorre uma sbita exploso de adrenalina e pnico. As reaes psicolgicas podem ser mais bem administradas se houver rotas de fuga visveis e obstculos, como muros, que organizem o fluxo da multido assustada. Quando o ser humano se assusta com um incndio em um imvel de planta catica, a tendncia  que ele corra em direo a qualquer espao vago, sem raciocinar, esbarrando em mveis e noutras pessoas, diz Rodrigo Machado Tavares, engenheiro especialista em dinmica das multides. Foi o que aconteceu em Santa Maria.

NO MOMENTO DO PERIGO
O estudo dos fluxos de pedestres permite tornar mais seguros eventos e locais que renem multides, como as estaes de metr, os estdios de futebol e as casas noturnas. Veja padres de comportamento de pedestres em situaes de risco.
Em famlia - Em meio a uma multido, pais e filhos formam um grupo coeso que se locomove na velocidade do membro mais vagaroso. Em incndios ou tumultos, o grupo atua como uma unidade de autoproteo, mas tambm se constitui em obstculo para as outras pessoas.
No metr lotado - Se h um destino comum e a liberdade de movimento  restringida por corredores apertados, as pessoas se comportam de modo similar ao das molculas de gua de um rio: umas empurram as outras e todas seguem o fluxo. Isso torna mais fcil criar rotas de fuga que conduzam a multido para a segurana.
Em uma avenida movimentada - O trfego flui porque a multido se organiza naturalmente em filas e cada pessoa tende a seguir quem est  sua frente. Em tumultos, esse padro  perturbado e os indivduos correm sem rumo. Um policial pode servir como referncia para restaurar a ordem.
Incndio na boate - Em um incndio numa casa noturna, como o que ocorreu em Santa Maria, a multido se fragmenta em indivduos tentando sobreviver. Em meio a escurido, barulhos, sem um lder nem indicaes precisas sobre o caminho a seguir, instaura-se o pnico. O perigo aumenta quando muita gente tenta forar a passagem por uma nica sada.

Fontes: Rodrigo Machado Tavares, engenheiro de segurana contra incndios, e Paul Townsend, matemtico da consultoria Crowd Dynamics.

COM REPORTAGEM DE HENRIQUE CARNEIRO


8. PREPARADOS PARA O PIOR?
Incidentes como o ocorrido no novo estdio do Grmio levantam dvidas sobre o padro de segurana dos eventos que atraem multides no Brasil.

     Logo na segunda partida do Grmio no estdio que foi inaugurado h dois meses em Porto Alegre, por pouco uma nova tragdia no se abate sobre os gachos. Na quarta-feira passada, os torcedores acomodados na geral da Arena do Grmio correram em direo  grade que os separava do gramado para comemorar um gol do time da casa, numa manobra tradicional entre os gremistas conhecida como avalanche. A grade no resistiu  presso das centenas de pessoas e cedeu. O saldo foi de oito feridos, mas poderiam ser muitos mais. O estdio do Grmio foi erguido para ser um exemplo de segurana e modernidade, porm a prpria direo do clube, at a quarta-feira, incentivava a prtica da avalanche entre os torcedores  ou seja, deixava a porta aberta para o perigo. No dia seguinte, a diretoria do Grmio interditou aquela rea do estdio at que medidas de segurana sejam adotadas. O episdio embute os riscos que podem oferecer no Brasil os eventos que atraem multides. Na poca das festas de So Joo, o municpio de Caruaru, em Pernambuco, recebe 1 milho de visitantes. A organizao conta com uma boa estrutura de segurana, mas, nos shows mais disputados, que ocorrem no chamado Ptio do Forr, a aglomerao do pblico se d  razo de cinco pessoas por metro quadrado. Caso haja uma briga, pode haver tumulto e pnico. O padro de segurana internacional  de duas pessoas por metro quadrado, diz Ricardo Chilelli, engenheiro especializado em segurana.
O Festival Folclrico de Parintins, no Amazonas, rene 35.000 pessoas por noite no Bumbdromo, uma espcie de estdio construdo para a festa. Durante os desfiles,  comum o uso de fogos de artifcio. No ano passado, houve um princpio de incndio em uma das alegorias, mas os bombeiros impediram que o fogo se alastrasse. H doze anos, foi pior: os rojes entraram pelos camarotes. Muita gente, em pnico, pulou para as arquibancadas.
     A Festa do Peo de Boiadeiro, em Barretos, no interior de So Paulo, atrai 800.000 visitantes durante dez dias. Dois anos atrs, um touro escapou e subiu na arquibancada. Por sorte, era uma segunda-feira e havia pouco pblico  caso ele fosse numeroso, podem-se imaginar as consequncias. Depois disso, a organizao da festa aumentou em 50 centmetros a altura da grade que separa a arena do pblico. Os desfiles no Sambdromo do Rio de Janeiro compem um cenrio de risco: diante de 75.000 pessoas aglomeradas, uma queima de fogos anuncia a entrada de cada escola, seguida pela fila de carros alegricos decorados com material inflamvel que passam por cima de fios e cabos de todo tipo. Em 2011, na reforma que criou uma nova ala de arquibancadas, as estruturas de concreto e as instalaes de segurana foram reforadas. Construram-se novas sadas de emergncia, instalaram-se escadas externas de fuga e aumentou-se o numero de extintores de incndio. Ponto para o samba carioca. O episdio do Grmio prova que no se pode dar chance aos imprevistos.


